Hoje estou trazendo para vocês um editorial que achei muito interessante e por isso não suprimi nem resumi o conteúdo e estou postando-0 na integra.
Fonte : O pequeno investidor, por Fábio Portela.
É… o governo tanto insistiu que os juros começaram a cair na economia brasileira. No início, a insistência era velada, com críticas veiculadas na imprensa tanto à taxa Selic, fixada pelo Banco Central e que determina os juros pagos pelo governo para captar recursos e financiar suas atividades, quanto aos altos juros cobrados pelos bancos. Com clara influência sobre as decisões do Banco Central, o governo federal conseguiu que os juros caíssem para 9% ao ano; e, mais recentemente, fez com que os bancos públicos (Caixa Econômica e Banco do Brasil) diminuíssem os juros também para os clientes do setor bancário. Isso significa que as taxas de juros cobradas em empréstimos, financiamentos (inclusive o imobiliário, como sinalizou a Caixa Econômica recentemente), no cheque especial e em outros produtos bancários. Mas o que isso significa para você? Significa coisas diferentes, se você é um devedor ou um investidor!
Ao reduzir juros, o governo quer beneficiar o devedor! Para que ele… deva mais!
A queda nos juros tem um destinatário direto: quem deve. E não, o governo não quer que os devedores tomem juízo. Quer que eles se endividem ainda mais. E, diminuindo os juros, é possível dever mais pagando exatamente a mesma prestação que se pagava antes. Para entender esse raciocínio, pense na situação de alguém que pegou R$ 10.000 emprestados a juros de 3% ao mês, pelo prazo de 35 meses, e irá pagar parcelas fixas. Nessa situação, o valor de cada parcela é de R$ 465,39. Se os juros caírem para 2% ao mês, a parcela cai para R$ 400,02 (ou 14% a menos); e, se os juros caírem para 1% ao mês, a prestação já despenca para R$ 340,04, ou quase 27% a menos do que a prestação original.
Isso significa mais ainda: como o devedor podia gastar os R$ 465,39 de parcela para pegar emprestado R$ 10.000 com juros de 3% ao mês, com os juros menores ele poderia pegar mais dinheiro emprestado. A juros de 2% ao mês, ele pode pegar emprestado R$ 11.634,11 (ou 11,63% a mais do que o montante original de R$ 10.000,00), e a juros de 1% ao mês, já poderia pegar emprestado R$ 13.686,46 com a mesma prestação, ou 36,86% a mais do que o valor original do empréstimo. Juros mais baixos significam que o devedor pode consumir mais pagando exatamente o mesmo valor que pagaria.
No exemplo, discutíamos a situação de alguém que pegasse emprestado um valor relativamente baixo. Mas digamos que o devedor quisesse comprar um carro e pudesse pagar uma prestação de aproximadamente R$ 2.000,00 em 5 anos. A juros de 3% ao mês, ele poderia comprar um carro de R$ 55.500,00 pagando uma prestação de R$ 2.005,38; e a juros de 2%, poderia comprar o mesmo carro por uma prestação de R$ 1.596,62 (bem mais baixo, não?), ou um carro melhor, de R$ 70.000,00, por uma prestação de R$ 2.013,76. Ou então, se os juros caíssem a 1% ao ano, já poderia comprar um carro de R$ 90.000,00 pagando a mesma prestação. Ou seja, só porque os juros caíram de 3% para 1%, o consumidor poderia comprar um carro quase duas vezes mais caro.
E… é exatamente nisso que o governo federal está pensando. A determinação de que os juros caiam só tem um destino: estimular o devedor a dever mais. Pra quê? Porque mais gente comprando significa que a economia vai girar mais. As empresas vão vender mais e as pessoas vão comprar mais, e o PIB vai ser artificialmente inflado por mais um ano. Isso vai acontecer até que os juros estejam num patamar mais civilizado, quando o governo não terá mais essa ferramente (baixar os juros) a sua disposição. Ao invés de diminuir tributos e estimular as empresas a produzir bens mais baratos, o governo deu o estímulo na outra ponta - a consumidora. O que gera ainda outro efeito para o governo: com mais vendas, ele também vai arrecadar mais. Essa reportagem mostra isso muito bem:
http://www.youtube.com/watch?v=wBlnXttZA2s
Você já deve ter percebido que sou contra essa situação. Ao invés de estimular as pessoas a economizar e a investir, o governo quer que elas (e ele próprio) gastem mais. Ao invés de estimular a produção mediante o incentivo fiscal, o incentivo mediante a redução de juros. Pode "dar certo" por um tempo, mas não acho que seja lá muito sustentável.
Veja bem: eu não estou dizendo que sou desfavorável à redução de juros. É uma medida importante, e já havia passado da hora disso acontecer. Mas ela, por si só, pode levar a vários problemas; aliás, boa parte da crise que aconteceu nos Estados Unidos se deveu a uma política de juros extremamente reduzidos, que inflacionou o preço de muitos bens. Por aqui, a redução de juros no financiamento imobiliário provavelmente dará maior fôlego à expansão no preço dos imóveis, inflando ainda mais a bolha imobiliária que nos assola.
E o investidor? Que rebole para ter uma rentabilidade maior, num cenário de juros mais baixos!
Mas existe uma outra ponta. A do sujeito que se desdobra para fazer sobrar economias suficientes para que possa ter uma aposentadoria decente. A de quem busca investir para garantir o que ninguém mais pode garantir, senão ele mesmo, que luta contra o sistema público oficial, que só é capaz de prover o suficiente para uma aposentadoria mediana. Esse sujeito normalmente é retratado como vilão: é o sanguinário que quer viver de juros extorsivos pagos pelos outros. É chamado de rentista, de sanguessuga. Mas não; é só alguém que jogava com as regras do jogo - e, como elas mudaram, é preciso se adaptar.
Não é possível mais contar apenas com os juros da renda fixa. Com a queda dos juros, a renda produzida por eles minguará cada vez mais, em praticamente qualquer modalidade - CDB, DI, tesouro direto serão o que são em outros países - simples reserva de valor, com parca garantia contra a inflação, e não fonte de renda. Como já apontei em outras oportunidades, esse investidor vai ter que se virar para aprender como funcionam outras fontes de renda passiva - ações, fundos de investimento imobiliário, debêntures, LCI e LCA deverão fazer parte de seu vocabulário.
É possível que, num cenário de juros mais baixos, quem investiu em ações tenha algum alento, apesar da queda dos últimos dias. Com a queda dos juros, muitos investidores de renda fixa deverão comprar ações para continuar com alguma expectativa de rentabilidade. Com isso, o preço das ações deve subir um pouco. Mas essa realidade deve gerar outro efeito deletério: a redução do dividend yield das principais empresas pagadoras de dividendos. Com o aumento do preço, a proporção entre os dividendos pagos e a cotação das ações deve se reduzir um pouco, para níveis compatíveis com a renda fixa.
Enfim… o momento é de turbulência para as formigas que pensam no futuro. Para quem pensa no presente, a farra das cigarras deve continuar por algum tempo. Mas em algum momento, como na fábula, as formigas terão seu momento de glória.
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